Ele estava cansado. Tinha que estar, a vida estava exigindo muito dele desde que decidiu seguir aquilo que lhe fora reservado pelo destino. Já fazia muito tempo que ele tinha abandonado o povo dele para se enveredar por difusos e sombrios caminhos. Mas nessa noite ele estava particularmente abatido, sentindo o peso de suas escolhas nas costas e desejando mais do que nunca uma noite de sono e de paz.
Deitou-se na cama com a certeza de que em breve estaria nas asas de Morfeu. Doce ilusão. Tão logo começou a cochilar escutou um quase ensurdecedor barulho que vinha do andar de cima. O com que vinha do apartamento vizinho parecia o de um animal sendo sacrificado e que, agonizando, gemia de dor.
Ele já havia se acostumado com esse barulho, pois há meses ele o incomodava. Por vezes pensou em ir reclamar, mas sempre tinha coisa mais importante para resolver e a vontade de permanecer desconhecido sempre falava mais forte. Mas dessa vez ele não poderia evitar, o ruído estava cada vez mais alto e cada vez mais insuportável. Não, não tinha jeito, ele era obrigado a tomar alguma atitude. Ele não poderia permitir que essa atrocidade continuasse.
Tomado de uma inesperada fúria e de uma igualmente inédita coragem, subiu as escadas. Típicas escadas das pensões do interior do Brasil: fétidas e barulhentas
A cada passo que dava tentava recordar o que ele sabia do morador que tanto o incomodava. Lembrou-se uma vez de ter escutado algo sobre um senhor solitário. Escutado, isso, era um velho surdo que morava lá.
Chegou a pensar em voltar, pois os grunhidos eram absurdamente apavorantes. Mas, àquela altura, em frente à porta não havia outra saída. Sem escolha, deu um chute na porta, que foi à baixo como se feita de papel, e entrou no quarto gritando:
- Escuta, hombre, si usted no parar com este barulho jo irei matar-te !
O velho quase surdo assustou-se, largou a flauta doce que tentava aprender a tocar há mais de 20 anos. O barulho dela no chão ecoou pelo quarto escuro e vazio. Sem entender absolutamente nada e sem conseguir defender-se, o ancião assistiu atonitamente àquele homem robusto e bigodudo sacar 2 imponentes pistolas cromadas com cabos dourados em forma de corações partidos que se completam. Desesperado ele perguntou:
- Para o quê ???
Foram as suas últimas palavras antes de levar 7 tiros na cabeça e 1 no ombro e cair morto no chão de seu cafofo. Ele nem teve a oportunidade de ouvir a resposta:
- PARAGUAIO !!!
Essa palavra foi vociferada ainda com a fumaça saindo dos canos de seus dois revólveres. Tão logo elas cessaram ele percebeu que não tinha alternativa. Nosso hermano que vislumbrava com a carreira de cantor de churrascaria no sul do país, percebeu que seria obrigado a abandonar o sonho de infância e a fugir deixando tudo para trás, inclusive o nome. De agora em diante ele seria conhecido apenas como:
El ASSASSINO PARAGUAIO !